Gospel Prime Noticias Gospel Musicas Gospel Videos Gospel Letras Gospel Cifras Gospel Biblia Online Estudos Artigos

Sem Ambiguidades

por · abril 1, 2015

Por Zwinglio Rodrigues

Li alhures uma tentativa de explicação de 2ª Pedro 2:1 a partir de uma perspectiva calvinista. A proposta pretende demonstrar que não se pode adotar o versículo em questão como uma prova arminiana sobre a expiação ilimitada.

O autor do texto calvinista vê 2ª Pedro 2:1 como um texto altamente ambíguo e, por isso, nada definitivo. De fato, se formos analisar 2ª Pedro 2:1 com lentes calvinistas, ambiguidades não faltarão. No entanto, se deixarmos que o contexto histórico e uma interpretação sem malabarismos lancem as luzes devidas para a compreensão dessa passagem, as pseudo ambiguidades não passarão de proposições marginais.

Motivo e Propósito

Para uma boa interpretação bíblica é fundamental levar em consideração o contexto histórico dentro do qual o escrito foi forjado. Essa é uma regra de interpretação básica.

O autor, ao escrever a 2ª epístola de Pedro, tinha como alvo atacar um certo tipo de gnosticismo libertino que estava invadindo a igreja. É exatamente no segundo capítulo que o autor começa a desferir seus golpes contra os falsos mestres da heresia gnóstica.

A Heresia Gnóstica

Em que consistia essa heresia? Ela era de cunho soteriológico.

Os gnósticos acreditavam que o homem era um ser caído e que precisava voltar-se para Deus. Porém, esse retorno só era possível por intermédio de diversos mediadores os quais seriam seres angélicos de segunda ordem. Para os mestres gnósticos Jesus Cristo era um desses seres mediadores – aeons – que em conjunto com os demais proporcionava condições ao homem caído de encontrar a salvação. Assim sendo, dentro desse breve arcabouço soteriológico, Jesus Cristo figura como um salvador nada suficiente. Sua expiação não tem valor salvífico. Esta é a questão pontual do contexto histórico que me é útil nesse momento. Agora, voltemos nosso olhar para o capítulo 2, versículo 1 e estabeleçamos algumas conexões.

Quem é o Soberano Senhor destacado no versículo?

Ora, se os gnósticos estavam reduzindo Jesus Cristo a uma classe de emanações divinas com os seus ensinos contrariando assim a pregação evangélica comum de que Ele é o Senhor, o Soberano, esse Soberano Senhor referido pelo autor canônico só pode ser o próprio Jesus Cristo. É Ele, e seu sacrifício vicário, o alvo dos hereges. É a favor de Jesus e de seu sacrifício que brota a defesa apostólica.

Os gnósticos admitiam um governante absoluto que salvava por meios dos vários mediadores. O escritor, por sua vez, apenas admitia um Salvador que em contraste com o conteúdo soteriológico dos gnósticos, era Soberano, Senhor, o próprio Deus e não um aeon.

Admitir que a designação Soberano Senhor fala do próprio Jesus Cristo não labora em erro interpretativo. Tomando conhecimento do motivo e do propósito da escrita de tal epístola reforça-se esta compreensão. Sem contar que o próprio versículo 1 com a palavra “resgatou”, e o versículo 2, com a frase “infamado o caminho da verdade” (sobre o “caminho” leia At 9:2 e Jo 14:6), dão suporte hermenêutico para de pronto admitirmos que o Soberano Senhor é a pessoa de Jesus Cristo.

Entendendo o uso da palavra “resgatou”.

A palavra grega traduzida é agoradzo. Ela pode ser traduzida também como comprar, redimir. Então, o uso de agoradzo no verso 1 indica que os falsos mestres tinham sido resgatados, comprados, redimidos por Jesus Cristo, aquele mesmo que eles agora negam devido à adoção de uma soteriologia estranha ao ensino apostólico. Sabemos que o sangue de Jesus Cristo compra, resgata, e redimi o homem [eis algumas referências onde a palavra agoradzo aparece com o sentido soteriológico: 1Co 6:20, 7:23; Ap 5:9]. Portanto, o Soberano Senhor que os dissimuladores estavam renegando era o próprio Jesus Cristo que os tinha “resgatado” das trevas com as quais eles novamente se envolveram. Tudo isso é muito claro. Não precisamos apontar ambiguidades no texto quando ele mesmo demonstra-se explícito e conclusivo. A não ser que se queira ajustá-lo à com um programa teológico.

O contexto histórico e o caminho interpretativo desprovido de uma teia de elocubrações tendenciosas de maneira alguma torna tal Escritura aqui analisada difícil de ser entendida.

É importante dar um destaque à palavra grega “despotes”

Traduzida, essa palavra significa senhor. Calvinistas advogam que o uso dessa palavra aqui indica que o Soberano Senhor não é Jesus Cristo, mas o Pai (acima eu apontei que esse “Soberano Senhor” é Jesus). Segundo eles d despotes nunca é usada no novo testamento para referir-se a Jesus Cristo.

Judas, versículo 4, escreveu:

Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo (Almeida Revista e Atualizada).

O verso chama Jesus Cristo de Soberano Senhor e a palavra grega usada para Soberano é exatamente despotes. Concordam com essa tradução a Almeida Atualizada, a Tradução Ecumênica da Bíblia, a Edição Contemporânea e a Nova Versão Internacional. Porém, é verdade que os intérpretes dividem-se quanto à questão se a melhor tradução seria entender que despotes se refere ao Pai ou a Jesus Cristo. Mesmo não encontrando no Novo Testamento o uso de despotes apontando para Jesus Cristo, não seria nada absurdo termos em 2ª Pedro 2:1 o uso de tal palavra referindo-se a ele pela primeira vez. O Comentário Bíblico Vida Nova diz: “Soberano Senhor é aplicado a Cristo somente aqui e em Judas 4, mas em Lucas 2:29; Atos 4:24 e Apocalipse 6:10” (2009, p. 2086).

Lembrando do contexto histórico que circundava os destinatários da 2ª espístola de Pedro, digo que os gnósticos não apenas negavam a suficiência da expiação de Jesus Cristo, mas negava-o como sendo o despotes, o Soberano, e a defesa do escritor visava também demonstrar que Jesus Cristo não era uma emanação divina, mas que Ele era o próprio Deus. A menção a Deus, o Pai, no versículo 4, nesse contexto, certamente visa expor a associação divinal entre o Pai e o Filho. Uma prova disso está no verso 9 que fala do Senhor, referindo-se ao Pai, usando a palavra grega kurios, vocábulo fartamente usado no novo testamento para falar de Jesus Cristo como sendo o próprio Deus.

Por fim, é preciso dizer que 2ª Pedro 2:1 é um texto que inequivocamente depõe contra a expiação limitada defendida pelos calvinistas. Esse conceito está imbricado com a doutrina da perseverança incondicional dos santos. Portanto, a expiação é limitada para um número de eleitos que nunca se perderão. Ora, o texto é enfático quando diz que os mestres gnósticos tinham sido comprados pelo Soberano Senhor Jesus Cristo que eles passaram a renegar. Se o texto diz que eles foram redimidos ou resgatados é porque de fato foram. Eu não preciso duvidar do que está escrito e nem tampouco preciso procurar fugir da objetividade da letra. Isso talvez devesse ser feito se a posição calvinista da expiação limitada (e perseverança incondicional dos santos) fosse uma premissa irretorquível nas páginas da Bíblia – isso ela não é.

Por Pr Zwinglio Rodrigues

Obras Consultadas

CARSON, D. A. (org.) Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2009.

RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1994.

Relacionados

Categoria * Geral *, Arminianismo

  • Amigo Flaviano, obrigado por visitar Dokimos e contribuir com as dicussões. Abraços!

  • Flaviano

    Vejo que você um arminiano de cinco ponto.

    Eu não sou calvinista,mas creio que o salvo,o verdadeiro salvo, não perde a sua salvação,pois o próprio Jesus garantiu: … dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. (João 10.27-30).

    Será que Jesus mentiu para suas ovelhas?
    No contexto, João 10.27-30, o Senhor Jesus esta ensinando sobre a segurança eterna das suas ovelhas, mostrando a importância da sua palavra para as suas ovelhas, afinal as suas ovelhas não escutam a voz de um estranho (João 10.5). mas exclusivamente a voz do bom pastor, que e Cristo o Senhor (João 1.:4).
    Há lugar mais seguro do que as mãos do Senhor Jesus?Existe uma linha tênue entre a salvação e a perdição????Todas as vezes que alguém peca perde a salvação?Ou o salva não peca? Enquanto o crente estiver carne, terá o problema do pecado (Mt. 26.41: “… o espírito está pronto, mas a carne é fraca.”).

    O QUE NÃO ACONTECE QUANDO O CRENTE PECA?

    Pense

    Abraço

    Flaviano Filho

    Há muita escritura para provar segurança dos salvos.