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Novas Respostas (outras não tão novas) a Franklin Ferreira

por · junho 2, 2015

Por Zwinglio Rodrigues

Esta imagem representa as obras de Armínio e dos Remonstrantes na balança para serem contrabalanceadas com as obras de Calvino. Do lado direito, notamos a espada do Príncipe Maurício de Nassau dando maior peso às obras de Calvino.

Esta imagem representa as obras de Armínio e dos Remonstrantes na balança para serem contrabalanceadas com as obras de Calvino. Do lado direito, notamos a espada do Príncipe Maurício de Nassau dando maior peso às obras de Calvino.

Abraham van der Eyk

Segue mais um capítulo de meus estudos junto ao irmão Franklin Ferreira. O texto a seguir é apenas mais uma informal resposta às considerações dele envolvendo arminianismo e calvinismo. O que ele escreveu e estimulou as linhas seguintes pode ser encontrado aqui. Eu não deveria ter respondido, pois o tempo anda escasso. Mas a tentação venceu. Hoje prejudiquei algumas coisas em favor desta. Espero, então, que minhas anotações abaixo sirvam pra enriquecer o diálogo. Recomendo ao leitor a série que se prôpos a escrever o pastor Silas Daniel também respondendo ao pastor Franklin Ferreira. Vejam aqui. Ainda em tempo, informo que estou me retirando do diálogo por causa das prioridades que tenho que dar conta por aqui.

1. No tocante à crítica por não ter definido semipelagianismo e semiagostinainismo, segue esta explicação:

O autor deveria compreender que não dei definições porque eu estava dizendo que os termos podem ser usados de modo intercambiável. Mas, expliquei por lá, eu prefiro o segundo exatamente porque deixa claro que nem no núcleo agostiniano as ideias radicais de Agostinho foram bem recebidas. Jessy Lyman Hurlbut (História da Igreja Cristã, 1999, p.82) teve a ousadia de dizer que apenas com Arminio e Wesley é que a igreja se afastou do sistema doutrinário agostiniano. Assim fazem muitos estudiosos calvinistas ainda hoje. O que fiz foi o que fez Gonzalez ao apontar que ao invés de usar semipelagianismo é mais apropriado dizer semiagostinianismo (Uma História do Pensamento Cristão. 2004, vol. 2, p, 56). Gonzalez explica:

Questões concernentes à doutrina de Agostinho sobre graça e predestinação foram levantadas primeiramente dentro do círculo de seus discípulos e seguidores [do núcleo agostiniano]. Dentre eles estavam alguns monges de Hadrumentum e um certo Vitalis. Este último propôs a Agostinho uma doutrina de acordo com a qual todo bem que alguém faz é devido à graça de Deus, mas o primeiro passo para a salvação, o de aceitar a salvação – initium fidei [fé inicial] – é somente nosso, e Deus não intervém nisso (id.)

Acho que isso resolve a primeira contestação.

2. Sobre “exegese, exegese e mais exegese”, o irmão aponta uma definição de exegese e conclui que à luz da definição não fiz exegese alguma dos textos citados. Estou de acordo.

A expressão “exegese, exegese e mais exegese” não é minha, mas do autor. Quando li tal expressão entendi que ele falava de passos, de gradação, de meticulosidade, de criteriosidade, quando ele sai de “exegese” até chegar “mais exegese”. Não foi isso que quisestes dizer com a expressão? Embora não seja um exegeta, sei que o trabalho de um é árduo. O que fiz foi tecer alguns comentários estando ainda no nível, digamos, da primeira “exegese”. Caso haja boa vontade, entenderão que ao dizer que meu texto era informal eu não estaria preocupado com os rigores acadêmicos.

Sobre minha referência a Spurgeon e 1Timóteo 2:4.

Não há nenhum apelo a autoridade. O que há é a constatação da responsabilidade exegética de um calvinista. Esse é o ponto e isso está claro. A conclusão que Spurgeon chegou é a que chegam arminianos clássicos. Isso eu aviso por lá. Observe: eu não estou dizendo que Spurgeon deixou de ser calvinista ou qualquer coisa parecida, mas estou afirmando que ele recrimina veementemente exegetas calvinistas que dão ao texto bíblico em foco um sentido conveniente para se harmonizar às suas crenças. Spurgeon diz enfaticamente sobre esses exegetas. Reproduzo mais uma vez:

Mudam o sentido das Escrituras;
Aplicam dinamite gramatical no texto;
Explodem o texto expondo-o;
Alteram o texto em favor de suas próprias doutrinas;
Estimam mais a ortodoxia do que a inspiração bíblica;
E são inconsistentes.

Para Spurgeon 1Timóteo 2:4 é inclusivista. Penso assim também. Isso é o que vem ao caso em minha intervenção no texto anterior e neste também.

Spurgeon padece com o duplipensar. A meu ver, de modo desnecessário. Sigamos.

O que Spurgeon se nega a fazer é exatamente o que o teólogo assembleiano Daniel B. Pecota acusa alguns calvinistas de fazerem, a saber: “Parece que os calvinistas às vezes apelam a métodos tortuosos, na exegese e na hermenêutica, a fim de evitar as implicações de outros textos neotestamentários” (A Obra Salvífica de Cristo. In: HORTON, Stanley M (org.) Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. 1996, p. 376).

Meu interlocutor crítica também o fato de, junto com as rigorosas repreensões, eu não abordar o contexto donde extraí a fala de Spurgeon. Ora, pra quê contexto se a fala de Spurgeon é objetiva, direta, e eu também fui direto e objetivo? Reivindicar o contexto é tergiversar. Mudará em quê? Calvinistas hoje não aplicam dinamite gramatical em 1Timóteo 2:4? Sim!

Caso meu interlocutor nesse debate apresente uma interpretação conforme o tipo de interpretação criticada por Spurgeon, segundo este, aquele estará estimando mais a ortodoxia do que a inspiração bíblica. Isso é grave!

Sobre endossar o calvinismo de Spurgeon, é claro que não endosso.

Acho que o “caso” Spurgeon está explicado.

Sobre a afirmação do autor de que o significado “todos os homens” de 1Tm 2:4 está no versículo 3 e diz respeito a “todo tipo de homem”.

Ele está errado! Antes de explicar porque, pergunto: com a afirmação feita meu interlocutor seguiu à risca as exigências da exegese? Prossigamos.

Antes do versículo 3 temos que chegar ao 1 e este encerra: “Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens.”

Podes negar que se trata de uma exortação para uma vida de oração em favor de todos os homens no sentido universal? Poder pode, mas creio que na farás isso.

Colin Brown (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2000, p. 2016) informa que a mensagem paulina de caráter inclusivista apresentada nas pastorais tem como foco opor-se ao exclusivismo de judeus e gnósticos. Talvez uma doutrina judaica herética, ou gnóstica, ou uma espécie de judaísmo gnosticizado. Leiamos Brown:

Contrastam-se (as Epístolas Pastorais) com a atitude exclusiva da sinagoga e dos gnósticos, que prometiam a salvação somente para os justos ou para aqueles que possuem o conhecimento.

Desse modo, o versículo 1 inicia o ataque ao exclusivismo soteriológico de uma das três possibilidade aludidas acima.

Ao chegar no versículo 2, Paulo delimita as coisas fazendo menção à categoria de pessoas “autoridades”. Nisso não há nenhum mistério.

Opto sempre pela clareza do texto e o versículo 1 e 2 apontam duas categorias de pessoas: “todas as pessoas” e “autoridades”. No caso dessa última há uma especificação por conta dos judeus terem como costume se revoltar contra as autoridades civis e o cristão teria que trilhar pelo caminho de maior sabedoria que era a oração. Disso, eles teriam uma vida em paz e sossegada.

Mas a qual versículo deve ser vinculado o versículo 4 quando entra em debate a salvação universal (qualificada)? Donald Guthrie (In: CARSON, D. A. (org.) Comentário Bíblico Vida Nova.  2009, p. 1947) diz: “[…] a associação parece estar na relação do todos no v. 1 e o todos no v.4.” Desse modo, o “todos” do versículo 4 são aqueles dignos da oração de alcance universal.

Guthrie (Id.), como Brown, sinaliza para um combate a um tipo de elitismo presente na igreja. Ele escreve:

Ele (Paulo) provavelmente está combatendo uma tendência ao elitismo que tenta limitar inadequadamente a compaixão de Deus.

Desse modo, o texto não apenas é inclusivista, mas combate qualquer tipo de exclusivismo soteriológico. Nesse sentido, o calvinismo, elitista como é, se aproxima de heresias. Em seu livro A Gênese da Predestinação na História da Teologia Cristã, o escritor batista Thiago Tittilo explica como Agostinho, em quem bebem calvinistas, chegou a seu elitismo soteriológico. O trabalho de Tittilo é excelente.

Sobre 1João 2:2, o autor, ao me criticar, a meu ver, tergiversa mais uma vez. Meu ponto central naquela abordagem foi o uso do vocábulo grego holos em 1João 2:2 e em 5:19. Por que na interpretação calvinista a mesma palavra ganha sentidos distintos, visto que o mesmo vocábulo é usado pelo mesmo autor, na mesma epístola e tratando do mesmo assunto que é o “mundo todo”? Ele não tocou nisso. Suponho que tenha sido porque sabe que é regra básica da hermenêutica entender uma palavra revestida de alguma obscuridade (o que não é o caso de holos em 1Jo 2:2) exatamente no contexto mais imediato possível. Ou seja, antes de ir a outros textos e autores é preciso averiguar se a palavra ou expressão ocorre no mesmo texto e autor estudado e saber qual real uso ele está fazendo da palavra. Concluir diferente disso no tocante ao sentido da palavra holos é mais uma vez aplicar dinamite gramatical ao texto. Aí só chamando Spurgeon pra exortar novamente.

Acho que basta para o ponto 2.

3. Fui também criticado por não citar as fontes quando das abordagens concernentes à teologia histórica.

Me impressiona o interesse de meu interlocutor pelas fontes visto ele não perguntar quais são elas antes dele dar respostas. Eu disse que as daria. Quem quer fonte e a elas dá importância, vai atrás delas. Vou apresentá-las aqui.

A história sobre o Sínodo de Dort nunca é apresentada de modo imparcial pelos calvinistas. Não apenas eu, mas muito estudiosos anônimos (como eu), tem detectado isso. Mas, o fato é que Dort é assustador. Agora, não dá pra falar de Dort sem observar antecedentes. Não dá pra fazer isso aqui mais exaustivamente do que farei nesse momento, logo, ficarão muitas lacunas. No entanto, creio que teremos um panorama razoável das coisas.

a) As Províncias Unidas no tempo de Armínio

[…] Frente às reações dos calvinistas rígidos por causa de suas crenças, Armínio deveras ficou chocado. Razão: “as igrejas reformadas das Províncias Unidas na época de Armínio eram genericamente protestantes em vez de rigidamente calvinistas” (José C. Rodríguez. Jacobo Arminio: vida, pensamiento y legado. Casa Nazarena de Publicaciones USA-Canada, Lenexa, Kansas. 2013, p. 61).

Armínio foi acusado de ter deflagrado discórdias nas Províncias Unidas por causa de suas “novidades” teológicas. No entanto, não é isso que os historiadores consultados dizem. Não havia uma predominância do supralapsarianismo de Beza sobre, por exemplo, o sinergismo de Philip Melancthon (1497-1560). Os ensinos de Melancthon encontraram aceitação e livre fluxo na Holanda muito antes dos ensinos de Calvino.

Frederick Cardel (Memoirs of Simon Episcopius, Harvard, 1831, p. 31) citando um livro sobre uma história eclesiástica da Holanda, publicado em alemão e escrito por Heinrich Ludolf Benthem, no ano de 1678, sob o título Hollandischer Kirch und Schulen Staat (História da Igreja e Universidades da Holanda), registra:

No início do século passado, uma pessoa com o nome de Hardenberg, morador de Emden, pregou contra a Igreja Romana. Ele logo atraiu muitos ouvinte, vários dos quais abraçou seus ensinamentos. Entre os ouvintes estava um com o nome de Clemens Martenson. Este homem, no ano de 1554, publicou uma obra, na qual ele tratou da eleição condicional. Este livro foi posteriormente aprovado por Henry Antonides, professor de teologia em Franeker. O livro foi muito vendido e contou com muitos admiradores e defensores . Isso foi notório na província de Utrecht, onde os ministros, sem exceção, aderiram aos ensinos defendidos no livro. Na Holland e em Friesland, ocorreu a mesma coisa […]

Calder (Ibid., p. 26) anota:

Alguns teólogos da Reforma mantiveram publicamente os princípios da graça universal, da resistibilidade da graça e da predestinação condicional, ensinando-os a muitos holandeses, e defendendo-os abertamente, antes de Arminius ter pregado em Amsterdã. Eles haviam sido apresentados em palestras públicas em Leyden, muito antes de Gomarus se insurgir contra ele. Suas obras (dos teólogos) ainda existem.

Calder ainda certifica a fluidez dos escritos de Erasmo e Melancthon entre as pessoas da província em detrimento das hipóteses rígidas do calvinismo. Além disso, em 1567, alguns ministros franceses adeptos da predestinação absoluta, sob a atenção e apoio do Príncipe de Orange, foram encorajados a prepararem uma confissão calvinista gerando muito desconforto, pois, como estamos instando, esta sim era uma inovação. Apresentada a confissão, alguns teólogos holandeses reagiram devido ao ineditismo da doutrina oposta à teologia corrente. Dentre esses estudiosos, Calder cita John Isebrand, pregador em Roterdã; Gellius Snecanus, pregador em Friesland; John Holmann, professor de teologia em Leyden; Jasper Koolhaes, de Leyden; Herman Herberts, de Dort; Cornelius Meinards e Cornelius Wiggerts, de Horn, entre outros.

Veja a síntese que extraí de Rodriguez (Ibid., p. 12):

Antes da Reforma Luterana se instalar, havia nos Países Baixos um intenso movimento de reforma.
Os Irmãos da Vida Comum, já presentes nos Países Baixos, prepararam o solo para a fertilização das sementes da Reforma.
Pregadores luteranos chegaram à região e conseguiram muitas conversões.
Depois, os anabatistas, seguidores dos ensinos de Mlechor Hoffman, cehgaram ao país.
Anabatistas mais radicais tentaram se fixar em algumas cidades, mas não foram bem sucedidos.
Por último, chegaram os pregadores calvinistas, oriundos da França, de Genebra e do sul da Alemanha.

As províncias Unidas eram uma terra revolvida e com o húmus da abertura religiosa e teológica. Era um contexto eclético e aberto.

Foi nesse cenário plural que Armínio viveu. Foi neste cenário plural que Armínio começou a sofrer com calvinistas rígidos como Francisco Gomarus. O calvinismo deste era mais uma crença no contexto plural das Província Unidas. Só ganhou ascensão por causa de questões políticas e sociais. Assim mesmo, foi preterido como veremos a seguir.

Carl Bangs, biógrafo de Armínio, anotou uma enfatuada declaração calvinista: “O Calvinismo chegou, Arminius quase o arruinou, o Sínodo de Dort o restaurou”. As fontes que consultei demonstra que o calvinismo chegou em um contexto religioso aberto, o Sínodo de Dort tentou impor o calvinismo, mas, finalmente, fracassou, pois assim que Mauricio de Nassau morreu todos os arminianos expulsos da Holanda voltaram e puderam livremente cultivar sua soteriologia e muito mais.

b) O Sínodo de Dort

O Sínodo de Dort se reuniu na cidade de Dort, Holanda, durante sete meses (13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619). Sua convocação foi feita pelo estadista geral da Holanda para discutir a controvérsia arminiana.

O Sínodo surge ainda em um contexto religioso plural. Calder (1838, p. 272) escreve:

A cada uma das províncias, pelo Tratado de Utrecht, foi dada liberdade para regular os assuntos de religião da maneira que mais conviesse aos seus interesses.

Ainda por Calder, somos informados que três das províncias, Utrecht, Holanda e Overyssel, eram contra o Sínodo de Dort exatamente por conta da autonomia de cada província quanto as questões religiosas. Mas, o que alterou esse cenário plural? As relações de poder. Segundo Roger Olson (Teologia Arminiana: mitos e realidades. Reflexão. 2013, p. 63), foram questões políticas os propulsores por trás das mudanças:

A questão é que a igreja protestante holandesa anterior abarcava diversidade teológica; tanto monergistas quanto sinergistas eram representados nela. Somente o poder do príncipe (Maurício de Nassau) permitiu ao partido monergista controlar a igreja, e com o poder do estado perseguir os sinergistas.

O arranjo de Dort era iminentemente político, mas os gomaristas desejavam acabar com o pluralismo religioso e teológico em favor da implantação de uma teologia hegemônica. Mas, como disse, isso não foi longe. Retornarei a esse ponto.

Leiamos Gonzales (Uma História do Pensamento Cristão, vol. 3. Cultura Cristã, 2004, p. 286) sobre a arquitetura política do Sínodo:

[…] a controvérsia ficou envolvida num conjunto de questões políticas e sociais. A maioria das províncias marítimas, e especialmente a burguesia, que era numerosa e poderosa naquelas províncias, tomaram a posição arminiana. As classes baixas rurais, bem como aqueles das ilhas que viviam da pesca, apoiaram o Calvinismo rígido de Gomarus, e foram acompanhadas nesta posição por diversos estrangeiros exilados para quem a pureza da fé era essencial. Assim como as províncias marítimas apoiaram João Barneveldt em sua oposição ao poder crescente de Maurício de Nassau, os arminianos contaram com o apoio de Barneveldt, enquanto Maurício era a favor dos Gomaristas. Quando Roterdã optou pela posição remonstratense, Amsterdã, que há muito era sua rival, assumiu a posição oposta. De qualquer forma, em 1618, Maurício de Nassau e seu partido tinham consolidado seu poder, e, portanto, quando o Sínodo de Dort foi convocado estava claro que ele condenaria a posição remonstratense.

Bom, em linhas gerais é isso que foi o Sínodo de Dort. Ele foi político, autoritário, sectário, sem unanimidade nas Províncias Unidas (vide as províncias de Utrecht, Holanda e Overyssel) e fracassado em seu plano hegemônico. Antes de demonstrar com mais clareza isso, faz necessário apresentar o caráter de Nassau, consoante descrição de Sir James Mackintosh e seu trabalho History of the Revolution of England (História da revolução na Inglaterra), de 1688:

Maurice, o filho mais velho de William, ultrapassou seu pai em gênio militar, mas ficou aquém dele no tocante ao domínio próprio (temperamento) e princípios, virtudes mais importantes e indispensáveis para o líder de um estado livre (apud CALDER, Ibid., p. 234)

O domínio próprio de Gomarus, pelo que constatei nas obras pesquisadas, era do tipo Nassau.

c) O fracasso do Sínodo de Dort no tocante ao banimento da fé arminiana nas Províncias Unidas.

Após a morte de Maurício de Nassau em 1625 os remonstrantes receberam tolerância – pelo País, não na chamada Igreja Reformada. Sucedendo a seu irmão Maurício, Frederick Henry (1584-1647) concedeu aos remonstrantes exilados o direito de retornarem (Laurence Vance. O Outro lado do Calvinismo. 1999, p. 54). Em 1630 foi-lhes concedido liberdade para seguir sua religião em paz, para construir igrejas e escolas. Em 1795, a Igreja Remonstrante foi oficialmente reconhecida e permanece até o dia de hoje. Assim, todas as acusações contra os arminianos foram suspensas e ficaram no papel (Williston Walker. História da Igreja Cristã. 2006).

O historiador Robert H. Nichols (História da Igreja Cristã. 2000, p. 1810 atesta que “o ensino destes (remonstrantes) foi vitorioso na Holanda e se espalhou por toda a Inglaterra e, depois, na América.”

Francisco Lafarga Cueva (Diccionario Teológico Ilustrado. Barcelona-ES Editorial Clie, 2008, p. 71) comenta o alcance do arminianismo depois da contundente resistência do Sínodo:

Os teólogos ingleses foram receptivos ao arminianismo, incorporando-o à teologia inglesa posterior do anglicanismo, como do metodismo, o que favoreceu sua divulgação universal de modo eficaz.

Bom, Dort apenas foi levado a sério no tocante à sua violência contra os arminianos enquanto Maurício de Nassau estava vivo. Nem o irmão dele, Frederick Henry, seu sucessor, viu virtude em manter as decisões de espólio e exílio de lideranças arminianas. Todo labor em remover das Província Unidas a pluralidade religiosa, mais notadamente o que chamamos de arminianismo clássico, não perdurou.

O trabalho citado (que não conheço) por meu interlocutor Acta et Documenta Synodi Nationalis Dordrechtanae [1618–1619], editado por Donald Sinnema, Christian Moser e Herman Selderhuis [2014], atesta, como ele mesmo reconheceu, o caráter político e social do Sínodo tão enfatizado anteriormente.

Uma coisa que me chamou a atenção foi meu companheiro de diálogo esforçar-se pra dizer que os calvinistas estavam do lado dos pobres e os arminianos ao lado dos burgueses. Desde quando essa polarização indica alguma piedade cristã? Historicamente, esse negócio de “pai dos pobres” nunca deu certo. Vide o Brasil atual. Pensando no caráter de Nassau descrito por Mackintosh, fico pensando o quanto, e como, lhe eram úteis os pobres.

Se entendi bem, fui culpado de adaptar fatos históricos aos meu interesses. Se foi isso que desejou dizer ao escrever

o estudo da história é importante, mas não pode ser utilizado para ‘provar algo’. Tal uso torna a citação da história mera ferramenta política. E o risco é que aquele que assim proceda cite dados e fatos históricos adaptando-os para seus próprios fins,

é claro que se enganou. Capturei informações históricas de fontes competentes. Apenas descrevi o que as fontes disseram. Cabe a meu interlocutor verificar as fontes que usei, as fontes que minhas fontes usaram e, depois, sugerir tal desonestidade intelectual.

Sobre o assassinato do ancião Van Oldenbarneveldt, Frederick Calder, conforme anotei no texto anterior, diz: “na manhã seguinte, 13 de maio de 1619, o último ato dessa tragédia realizado com o assassinato da vítima inocente, para servir como selo de sanção dos trabalhos do Sínodo (ênfase minha)” (ibid., p. 381).

A meu ver, devido as leituras feitas, Nassau e o Sínodo estão tão amalgamados por causa de seus interesses comuns que tentar separá-los é uma tarefa inglória.

Que Oldenbarneveldt foi preso, conforme sinalizou meu interlocutor, disso já sabia. Mas, interessante é que Maurício de Nassau depois de um estratagema frustrada usando a viúva Princesa de Orange, na tentativa de conseguir o apoio político de Oldenbarneveldt, sem o qual suas aspirações políticas ficariam ameaçadas, resolveu alinhar-se abertamente ao partido calvinista e junto com os gomaristas conseguiu ascender ao poder, diz Calder. Foi Gomarus quem conseguiu convencer Nassau de que o calvinismo representava proteção mais segura contra a influência do catolicismo espanhol (e da própria Espanha) que se espalhava pela Europa.

Sobre o caso envolvendo os dois filhos de Van Oldenbarnevelt, desconheço. E acho irrelevante pra questão, pois um plano de assassinato não justifica outro assassinato. Ademais, onde está a ligação do pai com os filhos nesta questão?

Sobre a afirmação de meu interlocutor de que o calvinismo queria uma igreja independente do Estado no sentido de decisões doutrinais, e os arminianos não, cabe perguntar de qual igreja se está falando. Seria a igreja calvinista apenas? Ora, já demonstrei que o projeto era suprimir a pluralidade teológica e religiosa existente nas Províncias Unidas. Não gosto da ideia do Estado controlando a igreja. Mas, também rejeito a imposição de um sistema religioso sobre outros. Não me acuse de anacronismo nesse momento, pois questões da história da vida da Igreja, postas em debate por crentes convertidos, se resolvem pelas lentes das Escrituras e não lançando mão de critérios historiográficos. Dort não passa pelo crivo das Escrituras. Se tivesse imitado o Concílio de Jerusalém no tocante a piedade cristã passaria.

Ainda em torno de Dort, sobre o que disse o autor no ponto (v), teço alguns comentários.

Qual valor tem o fato da Igreja Cristã Reformada ser estatal e sinodal se ela alçou essa posição exatamente cometendo arbitrariedades conforme esbocei acima? Quem vai respeitar uma instituição sufocante, persecutória, violenta, cheia de conchavos políticos, invasora de um contexto aberto e plural do ponto de vista religioso? Essas coisas atestam desfavoravelmente no tocante ao assunto piedade cristã?

O Sínodo de Dort é o resultado de uma série de iniciativas arbitrárias e maculadas pelo que há de pior na política e na religião.

Sobre Armínio, a Confissão Belga e o Catecismo, é fato que aquele as subscreveu. Armínio até usava-os pra fundamentar sua soteriologia. Agora, Armínio nunca pôs o Catecismo e a Confissão acima das Escrituras como faziam alguns calvinistas como o presidente do Sínodo de Dort João Bogerman. Tanto Armínio como os remonstrantes, acusados de serem infiéis ao Catecismo e a Confissão, eles não os rejeitavam, mas apenas não as estimavam como imutáveis cânones da fé. E não são. Nesse caso, mais vale obedecer a Deus do que aos homens. Não há perjúrio em ser fiel a Deus. Para Armínio e remonstrantes, sola scriptura, tota scriptura.

Creio ser o bastante por hora no tocante ao ponto 3.

4. Meu interlocutor disse que fiquei desconcertado com a sugestão de que arminianos negaram a doutrina da Trindade.

Ficar desconcertado com uma informação que detenho? Não fiquei não! O que fiz foi me antecipar a uma velha acusação de que Armínio e Episcopius negaram a Trindade Ontológica. É o que muitos calvinistas fazem hoje.

Por causa da doutrina da Monarquia do Pai eles foram violentamente taxados de heterodoxos. Mas, que há de heterodoxia na fórmula autotheos? Se há alguma, Atanásio e os Pais Capadócios, como Basílio, Dídimo, o Cego, entre outros, também são heterodoxos.

Algumas declarações de Armínio:

Veja a seguir a elevada cristologia de Armínio encontrada em The Works of James Arminius – Vol. 1, p. 14.a)

a) Plena divindade – Armínio escreve: “Em Cristo, Deus revela toda a Sua bondade.” (p. 13). Em seguida, apresenta as seguintes Escrituras: “Porque aprouve ao Pai, que n’Ele residisse toda a plenitude” (Cl 1:19); “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1:15); “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1:3) e “Quem me vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9). Toda bondade do Pai está revelada no Filho porque o Filho é Deus.

b) Imutabilidade divina – Armínio comenta: “Deus é apresentado a nós como imutável em todos os aspectos. Não só no tocante à sua natureza, mas também quanto à sua vontade […]” (p. 14). Para corroborar sua declaração, Armínio cita Hebreus 13:8: “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre.” A conclusão é óbvia.

c) Poder e Sabedoria de Deus – Armínio conclui: “Por isso Cristo é chamado ‘poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Co 1:24)’”.

Vejamos algumas confissões trinitarianas da Confissão de Fé redigida por Episcópius:

Considerado distintamente em três pessoas;
Esta Trindade de pessoas é conhecida por nós como: Pai, Filho, e Espírito Santo;
Uma destas pessoas (o Pai) divinas ou hipóstases da Deidade é isto é, sem causa e ingerada;
A outra pessoa tem a sua causa ou é gerada pelo Pai, a saber, o unigênito do Pai;
E também a outra pessoa, o Espírito Santo, igualmente procede e emana do Pai pelo Filho;
Ele tem comunicado desde toda eternidade a sua própria Deidade ao seu Filho unigênito;
Ele tem comunicado desde toda eternidade a sua própria Deidade […] também ao Espírito;
Espírito Santo, que desde toda eternidade, tem procedido de ambos (do Pai e do Filho) por uma secreta emanação ou expiração.

Foi sobre isso que falei no meu texto anterior? Pergunto ao meu interlocutor: você também considera a doutrina da Monarquia do Pai heterodoxa?

Continuando, o autor evoca Limborch e seus desvios como se nada eu tivesse dito sobre este no texto anterior. Ora, eu apontei que Limborch era adepto da nova religião natural do Iluminismo. Ele tratava da depravação humana como uma “miséria universal”, uma clara distorção do que ensinaram Armínio e Episcópius. Bom, evito falar de Limborch e outros que abandonaram, por exemplo, o pensamento soteriológico de Armínio, porque sou um arminiano clássico e não arminiano de cabeça. Meu esforço é por ressaltar, explicar e defender a teologia de Armínio e de Episcópius. Mais digno de nota é o fato de que John Wesley, Richard Watson, Thomas Summers e William Burton Pope, entre outros, mantiveram viva a soteriologia arminiana. Não perco tempo com desenvolvimentos posteriores porque ainda não é o caso. É mais ou menos o que faz meu interlocutor: ele não fica preocupado com o fato do calvinista Friedrich Schleiermacher ter sido o pai do liberalismo teológico. O que ele faz é ressaltar, explicar e defender seu calvinismo. Ele faz bem. Não, não pense que estou trazendo o assunto envolvendo Schleiermacher a baila pra discussões posteriores.

Acho que é isso por hora. Obrigado pela oportunidade de ir aprendendo.

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