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Notas Sobre São Vicente de Lerins e o Commonitorio

por · agosto 3, 2016

Por Zwinglio Rodrigues

Introdução

As breves notas seguintes são relacionadas ao monge Vicente de Lerins e seu Commonitorio, documento escrito no século V. Além de debruçar-me sobre o próprio Commonitorio para compor as notas, guiará minhas anotações o trabalho El Concepto de La Tradicion em S. Vicente de Lerins: estudio histórico-crítico del Communitorio de J. Madoz. O texto abaixo contempla apenas insights (o trabalho de Madoz é robusto) dos dois primeiros capítulos (Vicente de Lerins e su Conmonitorio e Contra quién fue escrito el Conmonitorio?) da obra de Madoz e tem por objetivo saber se o autor defende a tese de que o Commonitorio foi escrito para contrapor-se as ideias radicais de Agostinho quanto à graça divina e expor as razões subjacentes à possível defesa.

Informo que este texto é despretencioso, embora Madoz consiga me convencer a tomar partido de suas conclusões. Desconheço a existência de outra pesquisa contrapondo-se ao estudo de Madoz ou que siga numa direção diametralmente oposta aos resultados do estudo histórico-crítico do autor em foco.

São Vicente de Lerins

As informações sobre Vicente de Lerins são escassas. Os poucos dados acessíveis “se reduce a unos breves trazos transmitidos por Gennadio, y a lo poco que puedes rastrearse por ele examen interno del Commonitorio” (MADOZ, p. 39). O documento de Gennadio constando as informações é De viris illustribus, 64; PL 58,1097 – 98 (STAT VERITAS, p. 5) Sua obra é mais conhecida que ele. Vicente foi um escritor do sul da Gália do século V, era sacerdote e monge. Entrou para o monastério de Lerins, assumiu o pseudônimo de Peregrino (MADOZ, 1933; ver COMMONITORIO In: STAT VERITAS, p. 5) e faleceu pouco antes de 450 d.C. sob o reinado de Teodósio e Valentiniano.

A estatura intelectual de Vicente é descrita por Gennadio (apud MADOZ, 1993, p. 44) nos seguintes termos: “muy versado em las santas escrituras y ampliamente instruído em los dogmas de la Iglesia [e seu estilo era] pulido y brillantíssimo”. Outra personagem importante de Lerins, San Eucherion, considerava Vicente um homem santo, e reconhecido por sua sabedoria e eloquência (MADOZ, 1993).

Lerins

Lerins é uma ilha do Mediterrâneo, perto de Cannes, na França, e era chamada de Lerinus, Lirinus, Lerinum, Lerina ou de São Honorato (MADOZ, 1993). O monastério de Lerins foi “fundado por São Honorato hacia el año 410” (MADOZ, 1993, p. 43). Segundo Mardoz (1993), o monastério era um lugar de muito entusiasmo e fervor teológico e foi ali que Vicente escreveu o Commonitorio. “O mosteiro de Lerins tornou-se um dos centros da polêmica antiagostiniana” (MONDONI, 2006, p. 167).

O Commonitorio

O Commonitorio foi escrito em 434 d.C., três anos depois do Concílio de Éfeso onde foi condenado o patriarca de Constantinopla, Nestório (386-451 d.C), por causa de sua cristologia considerada herege. Vicente cita Nestório dizendo: “[…] se convertió repentinamente de oveja en lobo […].” (COMMONITORIO In: STAT VERITAS, p. 5). A finalidade da escrita do documento, é, segundo Gennadio “para evitar las sectas de los herejes” (apud MADOZ, 1993, p. 46). Isso pode ser constatado in loco: “[…] la astucia de los nuevos herejes reclama de nosotros una vigilancia y una atención cada vez mayores” (COMMONITORIO In: STAT VERITAS, p. 5).

Há dúvidas a respeito do título do livro. Madoz (1993, p. 47) diz que o título dos manuscritos era Incipit tractatus Peregrini pro catholicae fidei antiquitate et universitate adversus profanas omnium haereticorum novitates (De Peregrino em favor da antiguidade e universalidade da fé católica contra as profanas novidades de todos os hereges). Gennadio o chama de Peregrini adversus haereticos. Mas, o autor, sem aparente pretensão de indicar um título, por cinco vezes chama-o de Commonitorio. Já nos dias de Gennadio circulava com o título Peregrini Commonitorium adversus haereticos (MADOZ, 1993).

A palavra Commonitorio era usada comumente naquela época como título. Significa notas escritas de fácil memorização sem pretensões de constituir-se em um tratado exaustivo. Seu método não é complicado.

Dizem mais a respeito do Commonitorio:

El Conmonitorio constituye una joya de la literatura patrística. Su enseñanza fundamental es que los cristianos han de creer quod semper, quod ubique, quod ab ómnibus: sólo y todo cuanto fue creído siempre, por todos y en todas partes. Varios Papas y Concilios han confirmado con su autoridad la validez perenne de esta regla de fe. Sigue siendo plenamente actual este pequeño libro escrito en una isla del sur de Francia, hace más de quince siglos (STAT VERITAS, p. 2).

Houve uma recapitulação do Commonitorio que se perdeu. Madoz (1993, p. 49) o chama de 2º Commonitorio e informa que, de acordo com Gennadio, o livro foi roubado. Mas, isso é incerto e Madoz (1993) aponta as razões. Então, qual teria sido o motivo do desaparecimento do segundo livro? Madoz (1993, p. 51) diz:

Han sospechado algunos que en este negocio anduvo de por medio la mano de los Superiores del monastério, o la providencia amistosa de los monjes, o el buen critério del mismo Vicente. El primitivo segundo Commonitorio sería um ataque manifiesto, y por lo mismo peligroso, contra la escuela agustiniana de la predestinación.

Madoz (1933) trata dessa suspeita de animosidade antiagostiniana como razão do sumiço do 2º Commonitorio com algum descrédito, pois a parte do novo livro que se salvou, ao citar o Concílio de Éfeso reafirmando a Antiguidade como norma para validar ou não uma doutrina, e citar os Papas Sixto III e Celestino I opondo-se às inovações ímpias (COMMONITORIO In: STAT VERITAS, p. 35-36), não parece temer represálias. Para Madoz (1993) o segundo livro foi “sentenciado en cierta manera a desaparecer por su mismo autor, que no pudo sospechar esa obediencia exagerada de los editores a su consejo.” Madoz (1993, p. 52) deixa transparecer acreditar num ataque subjetivo à novidade agostiniana: “No se observa vestigio alguno de ataque especial y más directo contra la escuela agustiniana.”

Contra Quem Foi Escrito o Commonitorio?

De acordo com o historiador da Igreja Justo L. Gonzalez, Vicente de Lerins “em seu Commonitorium ele não ataca Agostinho diretamente, mas, ao invés, vem em defesa das doutrinas tradicionais contra ‘inovadores’ anônimos, que são claramente Agostinho e seus discípulos” (GONZALEZ, 2004, p. 58). Gonzalez, com esse comentário, remete o leitor ao trabalho de Madoz. Voltemo-nos então a esse autor.

Madoz (1993, p. 61) entende ser o Commonitorio um documento também de caráter antiagostiniano, mas, comenta: “No todos suscribirán todavía este parecer; pero él es el que de día em día va ganándose el campo de la critica.”[1]

O autor, para fundamentar sua posição, propõe responder duas perguntas, quais sejam, 1. “revela el Commonitorio um autor semipelagiano?” e, 2. “se propuso el monje de Lerins combatir com su libro la doctrina agustiniana de la predestinación?”. Vamos a um breve resumo das respostas.

1. O Commonitorio apresenta um autor semipelaginao?

Madoz (1993, p. 63), responde:

El medio ambiente y las demás circunstancias en que se concibió y escribió el libro, por una parte, y el examen interno de vários de sus pasajes, por otra, nos parece que lo prueban con suficiente certeza histórica.

O Commonitorio foi escrito no calor do debate entre os agostinianos e os monges marselheses denominados semipelagianos. “Foi no sul da Gália, especialmente em Marselha, que o espírito de oposição à visão de Agostinho sobre graça e predestinação foi mais forte. Nós temos conhecimento direto daquela oposição por meio de duas cartas enviadas a Agostinho por dois de seus defensores, Próspero de Aquitânea e Hilário de Arles” (GONZALEZ, 2004, p. 56-57). O envio dessas cartas ocorreu cinco anos antes da escrita do Commonitorio.

João Cassiano, um dos monges marselheses e o mais notável do grupo que incluía Vicente de Lerins e Fausto de Riez, escrevia suas Colaciones e defendia “ciertos esfuerzos de nuestra voluntad se antecipan a la gracia” (MADOZ, 1993, p. 64). A esse erro é que Próspero e Hilário fazem menção nas cartas escritas a Agostinho. Em resposta, Agostinho se apressa e escreve De Praedestinatione Sanctorum e De Dono Perseverantiae. Próspero de Aquitânea também se põe a escrever e compõe Gratia et libero arbitrio e o poema De ingrates (MADOZ, 1993). Em 429 d.C., o Papa Celestino escreve a Epistola ad Episcopos Gallarium recomendando o arrefecimento dos ânimos (MADOZ, 1993).

Foi nesse ambiente agitado que atuou Vicente de Lerins. Madoz (1993, p. 66) comenta:

A hora bien, en tal eiimnlo de circunstancias, respirando esta atmósfera de controversia semipelagiana, es de todo punto improbable que un autor como Vicente de Lerins, tan sensible a las agitaciones doctrinales que, como él mismo de sí atestigua, “La sutileza de los nuevos herejes le robaba todos sus cuidados y atención”, es de todo punto improbable, decimos, que no tomara parte activa en la lid semipelagiana.

O contexto imediato era crítico e não era da têmpera de Vicente ficar de fora.

Outra prova interna proposta por Madoz envolve o capítulo 32 do Commonitorio (In: STAT VERITAS, p. 36):

En el Papa Celestino encontramos el mismo pensamiento. En la carta que envió a los bispos de las Galias, les reprocha que, de hecho, estaban en connivencia con los propagadores de novedades, en cuanto que su silencio culpable venía a envilecer la fe antigua y permitía, por consiguiente, que se difundieran las novedades impías.

A carta escrita, citada anteriormente, foi Epistola ad Episcopos Gallarium. Nela, Celestino recomenda respeito à memória de Agostinho, zelo pela doutrina da Antiguidade que não contempla a predestinação agostiniana e pede para que os ânimos sosseguem devido a contenda teológica instaurada (MADOZ, 1993).

Ora, como a Epistola de Celestino refere-se a Agostinho e rechaça as teses radicais do bispo hipônes recomendando a crença da Antiguidade (que não era predestinacionista agostiniana), e Vicente no capítulo 32 do Commonitorio reporta-se à carta papal e seu conteúdo, a figura de Agostinho, necessariamente, aparece no documento vicentino.No excerto anterior, Vicente chama Agostinho, Próspero de Aquitânea e demais discípulos do bispo de Hipona de “los propagadores de novedades” que propagam “novedades impías”. Essas acusações para Gonzalez (2004, p. 58) apontam “claramente para Agostinho e seus discípulos.” O historiador da Igreja Wiliston Walker (2006, p. 249) segue a mesma direção: “[…] sem atacar Agostinho nominalmente, sugeriu que os ensinos deste sobre a graça e predestinação eram inovações que não tinham sustentação na tradição católica.” O ataque não é nominal, mas, ele parece, sem dúvida alguma, ocorrer.

Mais uma prova interna destacada por Madoz (1993) é a fraseologia claramente semipelagiana do Commonitorio. O autor faz uma seleção interessante de frases técnicas semipelagianas. Dentre elas, destaca-se a que está no capítulo 24 do Commonitorio (In: STAT VERITAS, p. 29): “¿quién nunca, antes del impío Pelagio, tuvo la presunción de atribuir al libre albedrío el poder tan grande de pensar que el auxilio de la gracia no es necesario para cada uno de los actos, para llevar a cabo las buenas obras?” Madoz (1993, p. 71) sublinha o verbo “auxilio” pra dizer que subjaz à presença dele nesse excerto a crença semipelagiana de que “Si Dios no ayuda nuestros esfuerzos, es a saber, los promueve una vez que ya hayan brotado de nosotros, ellos serán vanos.” Observe que para os semipelagianos, o “auxílio” vem depois da iniciativa humana. Essa crença era distintiva nos embates não só contra o pelagianismo, mas contra o agostinianismo. João Cassiano (apud TITILLO, 2014, p. 84): “[…] com efeito, tão logo Deus percebe nossa intenção de nos voltarmos para o bem, ele acorre ao nosso encontro, nos orienta, nos reconforta […]”.

Outra passagem com caráter semipelagiano está no capítulo 1:

Dejados atrás los vientos de la vanidad y del orgullo, ahora me esfuerzo en aplacar a Dios mediante el sacrificio de la humildad cristiana, para poder así evitar no sólo los naufragios de la vida presente, sino también las llamas de la futura (COMMONITORIO In: STAT VERITA, p. 5).

Chamo a atenção para a frase “ahora me esfuerzo em aplacar a Dios”. Esse “esforço” é a condição humana de poder ir à frente da graça de Deus e depois ser ajudado por ela. Escrevendo para Agostinho, conforme mencionei, Hilário, seu discípulo, disse: “Estas cosas son las que se difund en Marsella y em otros lugares de las Galias […] que quien ya haya comenzado a querer sea ayuadado, pero no que reciba también el querer” (apud MADOZ, 1993, p. 71).

Findando esse ponto, recapitulo que por três argumentos internos Madoz (1993) conclui ser o Commonitorio um documento semipelagiano e de ataque a Agostinho e seus discípulos. O primeiro argumento é o contexto crítico de embates teológicos no qual o documento foi escrito e que pode ser notado em seu conteúdo. O segundo refere-se à Epistola ad Episcopos Gallarium do Papa Celestino citada no capítulo 32 que foi escrita amainar o intenso debate entre os defensores de Agostinho e os marselheses. Lembrando que a posição de Celestino foi de respeito á memória de Agostinho, mas de reprovação às suas teses radicais (MADOZ 1993). E a terceira prova interna é a clara fraseologia semipelagiana do documento.

Passemos agora para o segundo ponto onde Madoz (1993) discute a questão do desígnio do Commonitorio. O título é “se propuso el monje de Lerins combatir com su libro la doctrina agustiniana de la predestinación?”.

2. Vicente está a combater a doutrina da predestinação de Agostinho com o Commonitorio?

Madoz (1993) informa que Próspero de Aquitânea lamentava os ataques privados desferidos contra Agostinho por parte dos semipelagianos e o comportamento hipócrita de não agirem do mesmo modo em público. É certo que Vicente estava preocupado com as novas heresias e isso ele deixou claro no Commonitorio (In: STAT VERITAS, p. 5): “la astucia de los nuevos herejes reclama de nosotros una vigilancia y una atención cada vez mayores.”

O primeiro excerto do Commonitorio destacado por Madoz (1993) a fim de assinalar um combate às teses agostinianas radicais referentes à graça divina está no capítulo 26, p. 31:

Efectivamente, osan prometer y enseñar que en su iglesia, es decir, en el conventículo de su secta, esta presente una gracia de Dios extraordinaria, especial, absolutamente personal; y es de tal clase que sin fatiga, sin esfuerzo, sin ansiedad alguna, incluso aunque no pidan, ni busquen, ni anhelen, todos los que forman parte de su número obtienen de Dios esa ayuda, hasta el punto de que son llevados por manos de ángeles y custodiados por su protección, sin que su pie tropiece nunca con una piedra, o sea, sin sufrir escándalo.

É bom traduzir esse excerto.

Efetivamente, ousam prometer e ensinar que em sua igreja, ou melhor, em seu conventículo de sua seita, está presente uma graça de Deus extraordinária, especial, absolutamente pessoal; e é de tal classe que sem fadiga, sem esforço, sem ansiedade alguma, inclusive ainda que não peçam, nem busquem, nem almejem, todos os que fazem parte de seu número obtém de Deus esse auxílio, até o ponto de serem levados por mãos angélicas e guardados por sua proteção, sem que seu pé nunca tropece em alguma pedra, ou seja, sem sofrer escândalo.

Há uma descrição mais adequada para a “graça agostiniana” que a delineada por Vicente? Vicente ataca um tipo de doutrina da graça cujos propagadores são hereges: “Pero es con las promesas que ahora vamos a decir con las que los herejes acostumbran a engañar, con un arte que es una verdadera maravilla, a quienes no están prevenidos” (COMMONITORIO In: STAT VERITAS, p. 31). Próspero de Aquitânea (apud MADOZ, 1993, p. 75), escrevendo para Agostinho, acusa os marselheses de “(Enseñan) que a la gracia que nos hace renacer en Cristo puédese llegar por fuerzas naturales, pidiendo, buscando, llamando; de suerte que sólo por el buen uso de la naturaleza y sin auxilio alguno de gracia inicial, merezca uno llegar a esta gracia de salvación, y asi reciba, halle y entre.” Posições sobre a graça claramente distintas, conflituosas, guerreiras e contemporâneas. Madoz (1993) é do parecer que não é preciso ter um olhar de lince para perceber o antiagostinianismo no excerto do Commonitorio.

Nota-se também um dos distintivos das teses radicais de Agostinho que é a perseverança dos santos. O Commonitorio crítica o dom da perseverança nos seguintes termos: “[…] obtienen de Dios esa ayuda, hasta el punto de que son llevados por manos de ángeles y custodiados por su protección, sin que su pie tropiece nunca con una piedra, o sea, sin sufrir escándalo.” É a “gracia de Dios extraordinaria”, que é máxima e grande. Quando escreveu para seu mestre Agostinho, Hilário (apud MADOZ, 1993, p. 76) suscitou a discussão enfatizando a crença semipelagiana: “Ni (admiten) que se dé a cada uno tal perseverancia de la cual no se la permita prevaricar, sino tal, que de ella pueda con la voluntad desviarse y perecer.”

Enfim, tamanha aproximação das denúncias e assuntos favorecem uma conclusão de que o Commonitorio tratou sobre a doutrina da predestinação agostiniana de modo combativo tendo-a como heresia.

Outro indício é destacado. Trata-se da Epistola ad Episcopos Gallarium mencionada anteriormente. Madoz (1993, p. 79) comenta; “Otro indicio, más sutil, pero de no menor importancia para rastrear la mente del Lirinense, es el arte con que procura torcer a favor del semipelagianismo un documento pontificio que había sido cabalmente expedido para su represión.” O espaço aqui não comporta destrinchar essa discussão, pois o autor, entre outras articulações, apresenta um quadro comparativo entre a Epistola de Celestino e o Commonitorio demonstrando a aproximação entre ambos e que requer uma atenção minunciosa. Ademais, os excertos postos em colunas estão escritos em latim, fato que dificulta sobremaneira o detalhamento das coisas aqui. Sugiro que o leitor leia o trabalho de Madoz nas páginas 79-83 e aprofunde a pesquisa.

Mas, antes de deixar para trás esta discussão, no capítulo 33, Vicente lembra que o Papa Celestino recomendou na Epistola ad Episcopos Gallarium que a “novidade” cessasse: “Cualquiera que se oponga a estas decisiones apostólicas y católicas, ofende ante todo la memoria de San Celestino, el cual decretó que la novedad debía cesar de acusar a la antigua fe (COMMONITORIO In: STAT VERITA, p. 37). Relembro que o conteúdo do documento papal, conforme Madoz (1993), versava sobre o respeito à memória de Agostinho, o fim do embate acirrado e a consolidação do que a Antiguidade, e não os “inovadores”, dizia sobre a graça. Sendo assim, ao citar o Papa Celestino, Vicente, refere-se, não nominalmente, mas subjetivamente, à pessoa de Agostinho.

Conclusão

Como dito anteriormente, há quem duvide ter sido escrito o Commonitorio para contrapor-se às inovações agostinianas sobre a predestinação. Mas, a corrente majoritária segue na direção oposta, conforme disse J. Madoz (1993, p. 61). Este é categórico em suas afirmações pró corrente majoritária: “El Commonitorio no tiene otro fin personal que el de echar abajo La doctrina de San Agustín sobre la predestinación.”

Embora conclua que o Commonitório seja um ataque a Agostinho e seus discípulos, tais como Próspero de e Hilário, Madoz (1993), assim como eu, conclui que os monges marselheses e, logicamente, Vicente de Lerins, foram longe demais na busca por um meio termo entre o que disse Pelágio e Agostinho a respeito do livre-arbítrio e sobre a graça de Deus. A tese do initium fidei defendido pelos monges de Marselha e Lerins incorre em erro e não encontra apoio bíblico. O Sínodo de Orange (529 d.C.) ensinou claramente a incapacidade natural do homem em realizar qualquer bem espiritual. Não há no homem, residual virtuoso algum que o coloque em condições de dar o primeiro passo da fé.

Referências e Notas

GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão: de Agostinho às vésperas da Reforma. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

MADOZ, J. El Concepto de La Tradicion em S. Vicente de Lerins: estudio histórico-crítico del Communitorio. Romae: Apud Aedes Pontificiae Universitatis Gregorianae. Piazza Della Pilotta, 1933.

MONDONI, Danilo. História da Igreja na Antiguidade. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

SAN VICENTE DE LERINS. Commonitorio: apuntes para conocer la fe verdadera In: Stat Veritas. P. 2 Disponível em http://www.statveritas.com.ar/Libros/COMMONITORIO(San_Vicente_de_Lerins).pdf Acesso em 02 de ago. de 2016.

TITILLO, Thiago. A Gênese da Predestinação na História da Teologia Cristã: uma análise do pensamento agostiniano sobre o pecado e a graça. São Paulo: Fonte Editorial (o livro foi revisado e ampliado e tem o selo da Editora Reflexão), 2014.

WALKER, Wiliston. História da Igreja Cristã. São Paulos: ASTE, 2006.

[1] Em nota de rodapé, Madoz (1993, p. 61-62) apresenta uma lista de estudiosos que “afirman el fin antiagustiniano del Lirinense, entre otros: Gerardo Voss, Historia de controversiis quas Pelagius ejusque reliquiae moierunt, Leiden, 1618, I, § 9, p. 575. — Card. De Noris, Historia pelagiana, Padua, 1673, 1. II, c. 11. pp. 245-253. — Natal. Alex., Historia ecclesiastica, Venecia 1776, pp. 47-50. — C. I. Hefele, Vincentius Lirinensis und sein Commonitorium, Teologische Quartalschrift, 36, (1854), pp. 83-100. — O. Baedexhewer, Geschichte der altkirch. Lit., Friburgo de Br., IV 1924, 581. — G. Eauschen, Florilegmm patristicum, V, Bona, 1906, Proleg. — J. de Ghellinck, « Vincent of Lerins ». The Catliolw Encyclopedia, vol. XV, pp. 439-440. — A. Jülichee, Bealencyklopadie f ür protestantische Theologie., ed. 3′, « Vincentins von Lerinum », t. 20, p. 670 ; Vincenz von Lerinum, Sammlung ausgew. Kirchenund dogmengeschichtlieher QueUenschriften, H. 10, Tubinga, 1925, Einleitung, pp. x-xi. — H. KoCH, Vincenz von Lerins und Gennadius en Texte und Untersuchungen, t. XXXI, H. 2 (1907), pp. 47-54. — P. de Labriolle, S. Vincent de Lerins, La pensée chrétienne, Paris, 1906, Introd., pp. lxxviii-lxxxv. — E. M. J. PoiREL, De utroque Conmonitorio lirinensi, Thesis, Nancy, 1895, pp. 164-180. — Entre los que defienden al Lirinense de este cargo pueden verse: Card. Baronio, Martyrologvum Eom., 24 maii. -— Los Bolandos, Acta sanctorum, Amberes, 1685, maii XXIV, t. V, pp. 284-287; juntamente con las Vindiciae pro S. Vincentio, de Neusser, p. 287-296. — Louis, Eevue du clergé frangais, 2, (1895), II, pp. 372-373.”

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