Gospel Prime Noticias Gospel Musicas Gospel Videos Gospel Letras Gospel Cifras Gospel Biblia Online Estudos Artigos

Jacó Armínio, um teólogo reformado

por · novembro 8, 2016

Por Zwinglio Rodrigues

Trecho do meu livro Uma Introdução ao Arminianismo Clássico: história e doutrinas. Editora Reflexão, 2015, p. 53-60. Compre aqui.

[…] Armínio não aceitava o predestinismo de Beza, e, ao contrapô-lo, inicia seu embate contra o calvinismo rígido. Ele contrapunha-se ao predestinismo rígido por falta de cristocentricidade no raciocínio quanto à eleição. Em seu esquema dos decretos divinos Armínio não começa pela criação, mas por Jesus como sendo o predestinado.

O primeiro decreto absoluto de Deus, concernente à salvação do homem pecador, é que Ele decretou designar seu Filho Jesus Cristo por Mediador, Redentor, Salvador, Sacerdote e Rei, que pode destruir o pecado por sua própria morte, pode obter, por sua obediência, a salvação que havia sido perdida, e pode comunicá-la por sua própria virtude.

Em sua teologia da redenção, Armínio tem Jesus Cristo como o ponto principal da predestinação divina. Beza ensinava ser a graça dependente da eleição ao passo que para Armínio a eleição segue a graça. Esse modo de pensar de Armínio faz de Cristo o fundamento da eleição e nega ser Ele meramente a causa de uma salvação pré-determinada. Para Armínio, o predestinismo de Beza empobrece a obra redentora de Cristo. Nesse sentido, W. Walker explica:

Ele (Armínio) ensinava, ao invés, que Deus primeiro nomeara Jesus Cristo como o Redentor e Salvador do pecador, e que os crentes são predestinados para a salvação somente em Cristo. O primeiro e absoluto decreto de Deus, portanto, teve Cristo somente como seu objeto, e a predestinação tem que ser discutida apenas nesse contexto cristológico.

Deus salva as pessoas de maneira condicional. Ou seja, ao receber a Jesus, o eleito, as pessoas são salvas. Quem o rejeita, está condenado. Tendo Beza como mestre, a educação teológica de Armínio em Genebra foi calvinista. Aqui surge a pergunta: Armínio era calvinista em algum sentido?

Laurence Vance apresenta um trecho de uma carta de Armínio no qual ele diz ter mudado de concepções.

Eu não me envergonho de ter ocasionalmente abandonado algumas opiniões que tinham sido instiladas por meus próprios mestres, visto que me parece que eu posso provar pelos argumentos mais convincentes que tal mudança ocorreu para melhor.

Uma dessas “opiniões” seria o predestinismo de seu mestre Beza? Para Walker, Armínio “discordou (de Beza) desde o início”. Segundo Robert E. Picirilli, Carl Bangs, uma das referências mais confiáveis do século XX em matéria de Armínio e arminianismo segundo Roger Olson, dizia estar convencido de que Armínio nunca subscrevera a formulação de Beza da doutrina da predestinação. Bangs disse: “(não há) evidência clara de que Armínio tenha aceitado a doutrina da predestinação de Beza.”

Frederick Calder (1808-1851), escritor de Memoirs of Simon Episcopius (Memórias de Simão Episcópio), narra que alguns calvinistas sublapsarianos (infralapsarianos) publicaram um trabalho chamado Responsio ad argumenta qumdam Beza el Calvini ex Tractatu de Predestination (Resposta aos Argumentos de Beza e Calvino Sobre a Predestinação – tradução livre) onde eles questionavam a doutrina da predestinação de Calvino e Beza. Esse documento chegou às mãos de Martinus Lydius (c. 1539-1601), ex-pastor em Amsterdã, que incumbiu Armínio de refutar os sublapasarianos. Vance apresenta os nomes dos ministros de Delft a serem refutados: Arent Corneliszoon (1547-1605) e Reynier Donteklok (c. 1545-c. 1611). Calder continua:

Para executar esta tarefa, Armínio era o mais preparado, pois ele retornara recentemente de Genebra, onde havia assimilado totalmente os ensinos de seu antigo mestre Beza.

É atribuída a essa incursão a guinada metodológica e teológica de Armínio.

Outra possibilidade, segundo Justo L. Gonzalez, tem a ver com a tentativa de refutar Dirkc Koornhert (1522-1590), humanista e Secretário de Estado Holandês, questionador da doutrina da predestinação dos calvinistas rígidos a quem Armínio tentou rebater, mas logo sucumbiu à exatidão de alguns pontos defendidos por Koornhert. Essa história popular, segundo Bangs é uma lenda ou, na melhor das hipóteses, como de difícil atestação. Bangs, ao chamar de lenda a história e depois chamar de hipótese de difícil atestação, não sepulta, obviamente, a explicação envolvendo Koornheert. Mas, Mildred Wynkoop a tem como verídica. Pelo menos de acordo com o seguinte excerto:

Em 1589, um leigo instruído, Koornheert, da Holanda, levantou uma tormenta nos círculos teológicos por suas dissertações e escritos em refutação da teoria supralapsariana dos decretos divinos. É significativo que o tremendo descontentamento gerado com a posição de Calvino e Beza, tenha levado um leigo a fazer tal coisa. Koornheert argumentava que, se fosse como Beza argumentava, Deus causaria o pecado; então, em realidade, Ele é seu autor. A Bíblia não ensina tal monstruosidade. Koornheert atraía um número cada vez maior de ouvintes e como polemizasse de forma tão brilhante, chegou-se a temer que seu pensamento solapasse a estrutura total do calvinismo, e mesmo a estabilidade política dos Países Baixos. Parecia que nenhum ministro era capaz de refutá-lo e, por isso, Armínio foi incumbido desta tarefa.

Para Wynkoop, Armínio, ao estudar a Epístola aos Romanos visando refutar Koornheert, convenceu-se quanto ao fato da doutrina da predestinação de Beza estar equivocada e, por isso, “jamais se realizou a refutação da ‘heresia’ de Koornheert.” Por fim, talvez a mudança de paradigma tenha ocorrido por causa dos incansáveis estudos de Armínio. Rodríguez admite uma transição metodológica e teológica quando o confronto com Beza se desenrolava. Como pano de fundo dessa transição, estão os estudos da Bíblia, da doutrina da graça e dos pais da igreja.

Bom, diante desse leque de possibilidades, talvez seja mais prudente admitir que as mudanças consentidas por Armínio estejam envolvidas na ausência de evidências históricas que deem conta de esclarecer quais foram elas. Ademais, apenas por ter estudado sob a docência de Beza não nos leva à conclusão da adesão ao sistema soteriológico de seu professor. Porém, três fontes consultadas para a compilação desse trabalho dizem ter sido Armínio um calvinista.

A primeira fonte destacada apresenta uma afirmação de Bangs. Citando a dissertação Arminius and Reformed Theology (Armínio e a Teologia Reformada) de Ph.D de Bangs, J. Matthew Pinson em seu artigo Que o Verdadeiro Arminius se Apresente! escreve:

É evidente que tais relatos de Arminius pressupõem uma definição do arminianismo que não pode ser derivado do próprio Arminius. Isto significa que os autores começam com pré-concepções daquilo que se espera que Arminius deveria dizer e depois quando procuram em suas obras publicadas não encontram exatamente aquilo que procuram. Demonstram impaciência e desapontamento com seu calvinismo (ênfase nossa) e em seguida mudam sua pesquisa para algum período posterior quando o arminianismo passa a ser aquilo que estão procurando: um sistema não calvinista, sinergético e talvez semipelagiano […]

Observe a parte em negrito. Armínio “tinha um calvinismo”. Ora, se tinha um calvinismo era calvinista.

Passemos a palavra para Gonzalez, nossa segunda fonte:

Ele [Armínio] foi um calvinista convencido, e permaneceu como tal por toda sua vida (ênfase nossa), embora em muitos dos pontos debatidos, ele óbvia e conscientemente se afastou dos ensinos de Calvino.

Armínio foi um calvinista convencido diz o historiador. Em outro trabalho, Gonzalez ainda diz: “[…] James Armínio, calvinista de boa qualidade […]” e “Em quase tudo mais, Armínio continuava calvinista […]”E, ainda mais, dessa vez citado por José C. Rodríguez: “Armínio e os remonstrantes haviam sido considerados calvinistas tanto por católicos como por luteranos.”

Leiamos Wynkoop: “Armínio viveu e morreu como calvinista (ênfase nossa).” Aqui Armínio nunca deixou de ser um calvinista. Bom, as fontes são objetivas: Armínio foi um calvinista. A bem da verdade, essas fontes não mostram porque consideram Armínio um calvinista. Rodríguez tece um comentário:

Anos depois da morte de Armínio, alguns calvinistas diziam em Amsterdã que este havia perdido a verdadeira fé calvinista (ênfase nossa). Armínio pode dar provas de que todas essas acusações eram falsas.

O autor toma a acusação de abandono da fé calvinista por parte de Armínio como mais uma mentira dos detratores.

Talvez Armínio seja considerado um calvinista porque subscrevia o Catecismo de Heildelberg (1563) e a Confissão Belga (1561): “Eu confiantemente declaro, que eu nunca ensinei qualquer coisa […] que fosse oposto à Confissão de Fé Holandesa, ou ao Catecismo de Heildelberg”. anotou Armínio. Ou talvez por ter recomendado a leitura dos comentários de Calvino e o consentimento às doutrinas ali apresentadas: “Eu os aconselho a ler os comentários de Calvino […]”. Ou então, porque, segundo Olson, ele tenha tido uma educação calvinista: “sua formação cristã na juventude não foi pesadamente calvinista.” Concordamos que tudo isso é bastante nebuloso. Mas aí estão as impressões ou confissões de estudiosos de destaque.

Pertinente a esta discussão é entender o contexto teológico de onde Armínio emerge. Ele não surge em um vácuo intelectual e sim de uma conjuntura onde diversas correntes teológicas e filosóficas eram ensinadas no final do século XVI e início do século XVII. Armínio não era indiferente a elas. Este contexto plural influênciou o pensamento de Armínio, segundo Rodríguez: o escolasticismo protestante, a filosofia tomista (Tomás de Aquino), o professor de lógica e filosofia da Universidade de Pádua, Giacomo Zabarella (1533-1589), a metafísica de Francisco Suarez (1548-1617), teólogo e filósofo jesuíta e Luís de Molina (1535-1600) jesuíta e teólogo espanhol, de quem originou a teoria “molinista”, conhecida também como “conhecimento médio.”

No que concerne a essa última informação de Rodríguez, a influência de Molina sobre Armínio é posta em dúvida por Olson. Qualquer aproximação de Armínio à teoria de Molina não durou muito, pois Armínio teria notado incongruências entre o molinismo e a doutrina do livre-arbítrio libertário.

Como foi possível notar, são muitas as influências de Armínio. Richard Muller o define: “Talvez, Armínio possa ser classificado melhor como um pensador eclético com um enfoque centro-tomista.” Rodríguez também chama Armínio de eclético.

Calvinista ou não, Armínio sempre se considerou reformado em um sentido mais lato e isso é mais importante, pois liga seu pensamento teológico à Reforma Protestante. Olson, recorrendo ao trabalho Arminius: A Study in the Dutch Reformation (Armínio: Um Estudo da Reforma Holandesa), de Carl Bangs, diz que “Armínio sempre se considerou reformado e na linha dos grandes reformadores suíços e franceses Zwinglio, Calvino e Bucer.” Walker comenta:

Ele (Armínio) tem sido descrito frequentemente como humanista ou racionalista, mas é muito melhor vê-lo como encontrando-se na tradição dos reformadores (ênfase nossa) protestantes holandeses autóctones que pouco ou nada deviam ao calvinismo genebrino.

Rodríguez também liga Armínio à tradição reformada: “Armínio está definitivamente na tradição reformada quanto ao conteúdo essencial de sua teologia.” Pinson classifica-o como “consistentemente reformado”.

Trabalhar o conceito de “reformado” seria o ideal nesse momento. No entanto, não faz parte de nosso escopo, pois o assunto é amplo, complexo e o espaço aqui insuficiente. Porém, devido à insistência de negarem a Armínio e, por conseguinte, ao arminianismo clássico, um espaço na “taxonomia dos tipos protestantes”, destaco cinco pontos levantados por Olson que podem legitimar a inclusão do “arminianismo dentro da ampla categoria da família reformada da fé.”

• Origens e temas comuns são abundantes;
• Ênfases partilhadas são mais numerosas do que a maioria das pessoas pensa;
• Muitos teólogos reformados moderados agora reconhecem o arminianismo e a teologia reformada como intimamente ligados;
• Armínio não se opôs a tudo no calvinismo ou teologia reformada, mas tentava enfatizar pontos comuns;
• Armínio e sua teologia representam uma variedade do pensamento reformado, mesmo fora do grupo dominante.

Estudiosos como Vance não apenas põem Armínio entre os teólogos reformados, mas o declara como ortodoxo: “Arminius merece ser classificado como um teólogo holandês reformado ortodoxo.”

Relacionados

Categoria * Geral *, Arminianismo